quarta-feira, 22 setembro 2021

Evocação a José Gregório

josegregorioJoão Dias Coelho, da Comissão Política do PCP,  interveio na inauguração da exposição evocativa do centénário do nascimento de José Gregório, no Museu do Vidro da Marinha Grande, onde afirmou que «a exposição que inauguramos, dá-nos a dimensão do homem e do seu importante papel enquanto dirigente sindical e dirigente do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores». José Gregório, foi um corajoso, perseverante e consequente lutador pela liberdade, contra a exploração e a opressão, pelo socialismo e o comunismo, causas às quais dedicou toda a sua vida.

Intervenção de Dias Coelho
Membro da Comissão Política do Central Central

 

Quero em primeiro lugar e em nome do Comité Central do Partido Comunista Português, agradecer a vossa presença e em especial agradecer a presença da família de José Gregório, neste acto simbólico comemorativo do centenário do seu nascimento.

Queremos também agradecer, à Câmara Municipal da Marinha Grande que nos cedeu este espaço

Faz precisamente hoje cem anos que nasceu José Gregório, operário, militante e destacado dirigente do Partido Comunista Português

Filho da Marinha Grande, terra de operários, José Gregório deixou com o seu exemplo de comunista e revolucionário uma marca profunda que perdura até aos dias de hoje.

Temperado pelo trabalho no qual ingressou quando tinha apenas 8 anos de idade, e pela luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores na qual se destacou desde os 12 anos com a luta dos jovens trabalhadores vidreiros, a vida de José Gregório fica marcada pelo seu combate e pela luta contra o fascismo e a construção de uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, pelo socialismo e comunismo

Esta iniciativa integra-se na necessidade de dar a conhecer e divulgar junto das novas gerações, o papel do partido na luta contra o fascismo, pela democracia e a liberdade.

A exposição que hoje inauguramos, dá-nos a dimensão do homem e do seu importante papel enquanto dirigente sindical e dirigente do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores.

A história da sua curta, mas exaltante vida confunde-se em larga medida com a história e a luta do Partido e a luta do povo português durante a longa noite fascista.

O registo da sua actividade e do papel que teve nas lutas que se travaram na região onde nasceu, revelam desde cedo um jovem operário que não aceitava a exploração e lutava incansavelmente pela melhoria das condições de vida dos seus companheiros de trabalho.

Temperado como o aço no fogo da luta e na escola do proletariado vidreiro que crescentemente afirmava a sua identidade e independência, José Gregório participou activamente na constituição daquela que viria a ser urna das maiores construções do operariado vidreiro, a formação do Sindicato Nacional da Indústria do Vidro em 1931.

Obra colectiva dos operários vidreiros, o processo de unificação das várias organizações para a formação deste sindicato não é separável da acção e intervenção dos comunistas vidreiros com particular destaque para José Gregório que é eleito para a sua direcção em 1933.

E é nessa qualidade que desempenha em conjunto com António Guerra e outros um papel de grande destaque na preparação e realização da heróica jornada do 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos, pela defesa da livre organização dos trabalhadores e dos seus direitos, contra a ofensiva patronal e do Estado fascista contra os salários de miséria, pelo horário de 8 horas, contra a repressão e a defesa das liberdades cívicas, que assumiu o carácter insurreccional na terra que o viu nascer, a Marinha Grande.

Num folheto da sua autoria sobre esse histórico acontecimento José Gregório dá conta que “depois de os operários se apoderarem das armas e das munições do quartel da GNR e com elas formarem novas brigadas para reforçar a defesa a alegria foi indescritível. Os vivas repetiam-se e os seus ecos atroavam como em dias de festa. Deram-se vivas à classe operária, ao povo da Marinha Grande, aos trabalhadores que por todo o país estavam lutando   Deram-se vivas ao sindicato, ao Partido Comunista Português....”


Esta descrição dá a dimensão do prestígio do partido granjeado pela sua acção na defesa dos interesses dos trabalhadores, pela sua justa orientação e pela acção de dirigentes como José Gregório

Na verdade, o operariado, os trabalhadores e o povo da Marinha Grande sob a direcção do Partido e do sindicato foram por algumas horas donos do seu próprio destino.

O fascismo derrotou esmagando pelas forças das armas esta heróica acção. A repressão abateu-se sobre o Partido e o sindicato, os operários e o povo da Marinha Grande. Muitos dos dirigentes foram presos e enviados para o Campo de concentração do Tarrafal. Mas o aço tinha sido temperado pela luta e o exemplo de José Gregório e de outros dirigentes do movimento, a força e o prestigio do Partido deixaram raízes profundas que perduram até aos dias de hoje.

José Gregório, é obrigado a fugir da Marinha Grande, mas não fugiu da luta contra o fascismo.

Em 1934 por decisão do Partido José Gregório vai para Espanha. E preso em Orense mas é libertado poucos dias depois devido à acção do Partido e do Socorro Vermelho Internacional e muito especialmente da classe operária de Orense que travou um importante luta pela sua libertação.

Após nova estadia em Espanha onde desempenha tarefas de rectaguarda na guerra civil espanhola, José Gregório regressa a Portugal em 1938 faz parte do SVI desenvolve uma intensa actividade.

Em Agosto desse mesmo ano é novamente preso. Tendo sido barbaramente espancado  é libertado em Junho de 1940, restabelece o contacto com o Partido começando a trabalhar com o camarada Alfredo Dinis (Alex ). Participa na reorganização de 40/41 que nos seus desenvolvimentos sob o impulso do camarada Álvaro Cunhal levou ao reforço do partido e ao ascenso da luta da classe operária e ao incremento duma ampla política de unidade antifascista. José Gregório é com Álvaro Cunhal um dos principais protagonistas deste período de afirmação e consolidação do PCP. Nesse sentido é justo afirmar que José Gregório faz parte do núcleo de construtores do Partido que somos e queremos continuar a ser.

Em 1941 incumbido da montagem da tipografia do «Avante!», adopta na clandestinidade o pseudónimo «Alberto », tendo ulteriormente desenvolvido trabalho organizativo de grande importância no Algarve e no Norte, acompanhando as regiões do Porto, Vale do Vouga, Coimbra e Trás-os- Montes.

Membro do Comité Central do PCP e do seu Secretariado para o qual foi eleito com Álvaro Cunhal e Manuel Guedes no III Congresso ( 1º na ilegalidade) em 1943, José Gregório teve um importante papel na elaboração e concretização da linha sindical do Partido que haveria de potenciar grandes lutas operárias na década 40.

Desenvolvendo intensa actividade ,em 1945 o camarada José Gregório é chamado ao Bureau Político do PCP.

Em 1946 José Gregório participa no IV Congresso (2º ilegal). dando um importante contributo para o êxito desta realização histórica. Nele faz três intervenções: alocução de abertura, informe sobre a repressão fascista e o movimento popular de unidade nacional e sobre o trabalho sindical do Partido

Destas três intervenções queremos relevar o informe sobre o trabalho sindical pela actualidade do seu conteúdo face à brutal ofensiva política e ideológica que se hoje desenvolve contra o movimento sindical de classe e os comunistas que por direito próprio nele participam e são o garante da sua natureza de classe e características essenciais.

Nesse informe José Gregório afirma que “ Para acertada e justamente avaliarmos a linha política do Partido em relação a todos os aspectos da vida nacional e referentes à luta pela defesa dos interesses da classe operária e do povo português, para que o nosso partido possa assentar, de acordo com a hora que passa, nas futuras tarefas a realizar, correspondentes ao derrubamento do fascismo, torna-se necessário e imprescindível considerar, muito atentamente a importância do movimento sindical bem como em relação a ele a posição do nosso partido”

Quando hoje alguns falam como José Sócrates e seus apaniguados no movimento sindical  que  “Precisamos é de sindicatos completamente livres, com espírito de compromisso, com pragmatismo e humildade para analisar os resultados e que não actue em função de doutrinas e unicamente inspirados por uma visão de contestação”, quando hoje tanto se fala em concertação de interesses este informe de José Gregório revela-se de uma grande actualidade e acuidade.

Afirmando que os sindicatos não devem ser neutrais, José Gregório coloca que “Há todavia quem no seio da classe operária aconselhe e defenda a neutralidade dos sindicatos em relação a importantes problemas referentes à vida dos trabalhadores e do nosso país . Isto é há quem afirme e defenda que os sindicatos se devem abster de fazer quaisquer acções de carácter político limitando-se unicamente a uma actividade de carácter económico....”. Rechaçando a tese da neutralidade e considerando-a corno perniciosa ao movimento sindical, José Gregório considera que “Não combater uma tal concepção a respeito da orientação a imprimir ao movimento sindical representaria privar a classe trabalhadora duma potente arma que possui na luta contra o seu inimigo e para atingir o seu objectivo final....” E conclui :“ Os sindicatos nunca deverão ser neutrais sempre e quando se trata da defesa dos interesses da classe operária. Nunca poderão pôr de lado a luta política sempre e quando se trata da defesa de quaisquer interesses da classe trabalhadora e do povo”

Talhado na construção da unidade da classe operária e da unidade antifascista, José Gregório dá um importante contributo à criação do MUNAF, MUD, MUD juvenil e à campanha eleitoral do General Norton de Matos em 1949, naquela como justamente assinala a nossa exposição que foi uma das maiores jornadas de luta contra a ditadura fascista

Perante a vaga repressiva de 1949, que conduziu à prisão alguns dos mais responsáveis dirigentes do Partido designadamente Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, José Gregório faz parte do núcleo de direcção que teve um papel notável na recuperação e reforço do Partido, da sua unidade e disciplina em torno da sua linha política em defesa do Partido contra os golpes da polícia fascista

Nas reuniões do Comité Central de Junho de 1947 e Agosto de 1949, José Gregório aborda algumas questões sobre a política de quadros. Queremos pela sua dimensão e num momento em que o Partido prossegue com intensidade um linha de rejuvenescimento e responsabilização de novos quadros destacar esta citação “ O nosso dever e a nossa preocupação devem ser no sentido de manter e alargar mais ainda as suas qualidades e possibilidades políticas, maior auxílio para que em todas as circunstâncias possam estes e outros quadros encontrar o caminho mais conveniente ao cumprimento dos seus deveres. E neste aspecto da nossa actividade devemos ir com a ideia não só de ensinar mas também de aprender com estes novos quadros”
Em 1956 em consequência da perseguição policial e dos prolongados e difíceis anos de luta, o revolucionário e comunista contrai uma grave doença do coração.
Vai para a Checoslováquia para ser tratado. Apesar do seu estado de saúde continua a dar a sua contribuição para o fortalecimento dos laços do PCP com Partido irmãos.

Em Maio de 1961 José Gregório morre na Checoslováquia, o nosso Partido perdia um quadro de grande dimensão humana, com fortes capacidades organizativas, com grande prestígio nacional e internacional, o revolucionário que tudo deu ao seu Partido e ao seu povo lutando incansavelmente pela liberdade e a democracia só conquistada 13 anos depois da sua morte e hoje tão ameaçada por aqueles que usufruindo dessa enorme conquista a ameaçam, atacam e vilipendiam todos os dias.

Como diz o Avante de Julho de 1961 “Homem de carácter integro e dotado duma extraordinária força de vontade José Gregório é um exemplo para todos os militantes do Partido”. Como Justamente declarou Álvaro Cunhal “José Gregório pertenceu ao numero dos homens que possuem a suprema virtude que é a dedicação ilimitada ao nosso povo e à nossa Pátria que são o orgulho do Partido e do Povo”

Em 25 de Abril de 1974, derrubado o fascismo, conquistadas as liberdades para as quais José Gregório e milhares de outros comunistas deram um contributo inestimável, os seus restos mortais puderam finalmente regressar a Portugal e à Marinha Grande, que como assinalou Álvaro Cunhal  é um nome. Escrito a ouro na história do movimento operário. Melhor se pode dizer: escrito com lágrimas e com sangue....”
“A Marinha Grande pode orgulhar-se de muitos combatentes de vanguarda que tem dado ao movimento operário”, fim de citação.

Ontem como hoje, quando a liberdade e a democracia e o regime democrático conquistados com o 25 de Abril estão fortemente ameaçadas por um poder político dominado pelo poder económico do grande capital, o reforço do PCP constitui a pedra angular na luta por urna ruptura democrática e de esquerda com a actual situação e a construção de uma alternativa política e uma política alternativa

Nós comunistas reafirmamos neste acto evocativo do centenário do nascimento de José Gregório combatente da liberdade, da democracia e da justiça social que honraremos o legado deixado por muitas gerações de comunistas, prosseguindo a luta  pela construção do socialismo e do comunismo na nossa pátria.

Viva o Partido Comunista Português

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